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A Mulher No Brasil
Edson Sardano
Diretor da Secretaria Urbana de Segurança,
Santo André, Brasil
Sumário
O assassinato transformou-se na principal
causa de morte entre mulheres de 10 a 49 anos na cidade de São
Paulo. É a primeira vez que o número de homicídios
ultrapassa o de doenças, desde que tais dados começaram
a ser contabilizados.
Há uma série de fatores
que contribuem para o crescimento dessa modalidade de violência,
mas os mais importantes são a dificuldade de ruptura
dos laços culturais que acentuam a condição
histórica de inferioridade feminina em relação
ao homem, acentuadamente no Brasil, além da fragilidade
das políticas públicas criadas para reverter tal
condição.
A legislação brasileira,
encara as agressões domésticas como crimes leves,
como uma briga de rua qualquer, o agressor acaba sendo liberado
tão logo preste depoimento à polícia. Os
maiores desafios para conscientizar as mulheres dos seus direitos
são justamente a promoção preventiva, e
a redução da exclusão social.
Uma legislação aprovada
no Congresso Nacional ainda neste mês de maio, poderá
significar um grande avanço, uma vez que permite ao juiz
decretar o afastamento do agressor da casa e das proximidades
da vítima, uma vez que não é possível
prendê-los em flagrante. Para se ter uma idéia,
de todas as delegacias da mulher no Estado de São Paulo,
77,15% não funcionam 24 horas e 76,40% não abrem
aos fins de semana. São justamente nesses dias e horários
que a incidência de atos violentos contra as mulheres
aumenta significativamente.
A Prefeitura Municipal de Santo André
conseguiu um financiamento do Governo Federal e vai construir
um equipamento público chamado Centro Integrado de Cidadania
que vai abrigar uma delegacia de polícia 24 horas, uma
companhia da Polícia Militar, Conselho Tutelar da Criança
e Adolescente e Balcão de Direitos.
O VEM MARIA e A CASA ABRIGO REGIONALIZADA
são outros dois projetos feitos en conjunto com a municipalidade
e o estado para da apoio e orientação psicossocial
e jurídica às mulheres em situação
de violência, com maior ênfase à doméstica
e sexual. Servindo também como interface com diversos
setores da administração pública (educação,
saúde, trabalho e profissionalização, moradia
e creche).
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O
assassinato transformou-se na principal causa de morte entre mulheres
de 10 a 49 anos na cidade de São Paulo.
É a primeira vez que o número de homicídios ultrapassa
o de doenças, desde que tais dados começaram a ser contabilizados.
Esses são dados da capital, todavia, a região metropolitana,
onde encontra-se Santo André, não apresenta realidade
diferente. Somando-se a faixa de idade onde concentram-se as mortes
(10 a 49 anos)e o fato de que dois terços delas são
cometidas por pessoas relacionadas às vítimas (maridos,
namorados e amantes), não é precipitado concluir que
o componente sexual é a principal causa da violência.
Embora o assassinato seja o evento mais marcante, com acentuada presença
nas áreas de maior concentração de pobreza, há
uma série de formas de violência contra a mulher que
não são contabilizadas pelas estatísticas e ocorrem
sem distinção de classes sociais.
Há uma série de fatores que contribuem para o crescimento
dessa modalidade de violência, mas os mais importantes são
a dificuldade de ruptura dos laços culturais que acentuam a
condição histórica de inferioridade feminina
em relação ao homem, acentuadamente no Brasil, além
da fragilidade das políticas públicas criadas para reverter
tal condição.
Dados estatísticos apontam que menos de 20% das mulheres afirmam
espontaneamente terem sido vítimas de violência, ao passo
que, quando estimuladas, especialmente quando alertadas quanto às
várias formas de violência, esse número sobe para
43%.
Dessa forma conclui-se que não basta apenas para a mulher estar
consciente do amplo espectro de atitudes violentas que são
perpetradas contra ela no dia-a-dia, mas é necessário
que haja instâncias de fácil acesso para denúncias
e suas decorrências.
Um exemplo típico dessa fragilidade de políticas públicas
é o que aconteceu com as delegacias especializadas em crimes
contra as mulheres.
Criadas no começo da década de 80 para facilitar o acesso
das mulheres à polícia, oferecendo a elas um atendimento
atencioso por meio de profissionais predominantemente do sexo feminino
e com treinamento adequado, a experiência acaba interferindo
pouco na realidade social, uma vez que não são feitos
os investimentos necessários e tais delegacias acabam funcionando
de forma extremamente precária.
Para se ter uma idéia, de todas as delegacias da mulher no
Estado de São Paulo, 77,15% não funcionam 24 horas e
76,40% não abrem aos fins de semana. O pior de tudo é
que é exatamente nesses dias e horários que a incidência
de atos violentos contra as mulheres aumenta significativamente.
Como na maioria dos casos (dois terços) o "inimigo"
é alguém relacionado à vítima, ao esperar
um, dois ou mais dias para o registro de uma ocorrência, a parte
atingida acaba sendo dissuadida de sua intenção, fortalecendo
a pedagogia perversa da impunidade.
Outro fator de desestímulo à elaboração
de queixas é que, pela legislação brasileira,
que encara as agressões domésticas como crimes leves,
como uma briga de rua qualquer, o agressor acaba sendo liberado tão
logo preste depoimento à polícia, voltando para casa
e ameaçando a vítima no sentido de não levar
adiante suas pretensões, até porque, sua presença
é mais efetiva do que a da justiça.
Quanto a esse último cenário, vale citar aqui uma legislação
aprovada no Congresso Nacional ainda neste mês de maio, que
poderá significar um grande avanço, uma vez que permite
ao juiz decretar o afastamento do agressor da casa e das proximidades
da vítima, uma vez que não é possível
prendê-los em flagrante.
Seguindo os caminhos das realizações positivas, a Prefeitura
Municipal de Santo André conseguiu um financiamento do Governo
Federal e vai construir um equipamento público chamado Centro
Integrado de Cidadania que, entre outras coisas, vai abrigar uma delegacia
de polícia 24 horas, uma companhia da Polícia Militar,
Conselho Tutelar da Criança e Adolescente e Balcão de
Direitos, instalando-o no local com os maiores índices de crimes
contra a pessoa, onde hoje não existe qualquer referência
de segurança, em especial à noite e finais de semana.
Seguindo a mesma política de fortalecimento, maior proteção
e combate a todas as formas de violência praticadas contra as
mulheres, a Prefeitura Municipal de Santo André desenvolve
um pioneiro programa com alcance regional, articulado nacional e internacionalmente,
objetivando, mesmo que com muita luta, alcançar a tão
almejada equidade de gênero.
Os principais exemplos dessa política são materializados
em dois grandes projetos, sob coordenação do Departamento
de Defesa dos Direitos de Cidadania, através da ASSESSORIA
DOS DIREITOS DA MULHER, da Secretaria de Participação
e Cidadania:
VEM MARIA E CASA ABRIGO
REGIONALIZADA
O VEM MARIA é um projeto de apoio e orientação
psicossocial e jurídica às mulheres em situação
de violência, com maior ênfase à doméstica
e sexual.
- fortalece as redes de serviços voltadas à mulher em
situação de violência
- estabelece parcerias que viabilizem os serviços de atendimento
e a prevenção à violência doméstica
- contribui com a montagem de outros serviços similares
- participa de fóruns regionais, nacionais e internacionais
- parceria com o Programa Renda Mínima e demais programas de
inclusão social
- realiza ações de prevenção e conscientização
na cidade, com encontros oficinas e apoio aos mais variados movimentos
de gênero
A CASA ABRIGO REGIONALIZADA, sediada em Santo André,
nasceu de uma iniciativa dos municípios do Grande ABC e tem
como objetivo garantir a integridade, saúde e segurança
da mulher em situação de violência doméstica
e risco de vida, bem como de seus filhos.
- é uma casa com proteção e sigilo totais, com
capacidade para 25 pessoas (máximo seis meses)
- apoio à reintegração da mulher à vida
social e econômica, bem como a defesa de seus direitos
- interface com diversos setores da administração pública
como educação, saúde, trabalho e profissionalização,
moradia e creche
- apoio psicossocial e jurídico para a mulher e seus filhos
- atende a mulheres da região do Grande ABC
Esses foram exemplos de algumas das políticas
desenvolvidas pela assessoria dos direitos da mulher, que se articulam
matricialmente com outros eixos de intervenção em âmbito
municipal e regional.
Nem sempre é fácil trabalhar na área de segurança
pública no Brasil, uma vez que toda a legislação
penal é de âmbito federal e a execução
das atividades restringe-se aos estados, contudo, a Prefeitura de
Santo André, apesar de inúmeras barreiras, tem procurado
realizar parcerias e atividades próprias, no sentido de combater
as causas da violência, onde inclui-se o apoio à mulher,
às crianças e adolescentes e todas as pessoas em situação
de exclusão, não deixando de, paralelamente, cobrar
o Estado e impulsioná-lo a realizar a parte que lhes compete,
da forma mais sintonizada possível.
Com policiamento acontece a mesma coisa, mas isso já é
outro capítulo.
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